Do reflexo ao Rosto
A promessa de São Paulo: o que hoje mal se entrevê, um dia se verá face a face
Em verdade, em verdade, eu te digo
“Videmus nunc per speculum in aenigmate, tunc autem facie ad faciem”
“Vemos agora como por espelho, em enigma; mas então, face a face.”
São Paulo, 1 Cor 13,12
Paulo usa a imagem de um espelho antigo, de metal polido, que devolvia um reflexo escuro e embaçado.
É assim que conhecemos a Deus e as coisas últimas nesta vida, de modo real, mas indireto e turvo, como quem enxerga algo num reflexo. Conhecemos "em parte", diz ele. Não porque Deus se esconda, mas porque ainda estamos a caminho, e os nossos olhos não dão para mais.
Mas isso é só o "agora".
Vem um "então". E aí a distância cai. Deixamos de ver o reflexo e passamos a ver o rosto, face a face.
Já não um Deus entrevisto num espelho, mas encontrado em pessoa. E o mais bonito está no fim da frase, nesse dia eu conhecerei "assim como fui conhecido". Quer dizer, o meu olhar hesitante alcançará enfim o olhar com que Deus, desde sempre, me olhou. Não é só que eu O verei, é que serei plenamente visto, e enfim me reconhecerei nesse olhar.
Por isso Paulo põe esta frase bem ao lado do elogio do amor. Tudo o que é parcial acaba, o pouco que sabemos hoje será varrido pela visão, como o reflexo some quando aparece o original. Mas o amor não acaba, ao contrário, é lá que ele chega ao máximo, porque ver a Deus de perto é amar a Ele, sem reserva.
É uma promessa de paciência e de esperança. O que hoje só se entrevê, no escuro e aos pedaços, um dia se verá inteiro, cara a cara, e nesse encontro está a felicidade para a qual fomos feitos.
PS: Face a face me lembra outra coisa também, a música Face to Face, de Daft Punk, parte do álbum Discovery, descoberta.
Como a letra sugere:
It's amazing what you'll find face to face \
É incrível o que você encontrará face a face.